Parto

Parto.
Parto porque não sei bem de quem vou sentir a falta, se de ti se do eu que sou contigo e só contigo. Porque não sei se é a saudade que me fazes correr nas veias que me puxa contra a torrente do mundo ou se é a saudade de mim que guardas secretamente em ti para que eu não perceba o quanto me amas que me faz acelerar os ciclos do tempo e dobrar a realidade até que se transforme num sonho onde estou contigo.
Indistintamente faço o meu coração falar, peço-lhe que me ligue a ti e a acabe com esta dúvida.
Ouço um eco vazio num vago esconso do meu corpo. Apuro os sentidos e escuto atentamente. É uma voz. A tua voz. Fecho os olhos e tento decifrar as tuas palavras, mas estás longe demais e o som chega distorcido pela realidade.
Faço-me à estrada e deixo para trás tudo o que me lembre de ti ou de mim. Procuro um lugar onde não exista a memória de nós, onde o tempo tenha ficado parado antes e as respostas do passado ainda perdurem. Procuro palavras para substituir o vazio que me sobra assim que te afastas, palavras que me expliquem o que ainda irá restar de mim depois de partires de vez e de me reduzires de novo ao meu lado obscuro. Procuro palavras que me digam o quanto me fazes falta e só encontro sentimentos que correm de forma desenfreada em mim da mesma forma que correram em ti (ou pelo menos assim quis acreditar). Procuro uma maneira de voltar atrás e desfazer o que nos separou, mas sei que o tempo já não se verga como quando os teus lábios me tocavam, sei que o passado não pode ser alterado e que os monstros que soltei em ti acabaram por dilacerar o que guardavas de mim.
Viajo mais depressa e mudo à medida que me aproximo de mim e me afasto de ti. Encontro no silêncio murmúrios de razões que ainda sinto e de outras que já deixei morrer, mas já não consigo ouvir-te… As tuas palavras já não me tocam as cordas da alma e eu já não consigo arrancar as respostas que procuro ao silêncio. Sei agora que parti para nunca mais regressar, parti porque queria ver até que ponto podia prender-me a ti, até que ponto tu ainda me querias contigo, parti porque eventualmente ia deixar que me destruísses no momento em que me desses um silêncio ao teu lado.
Sei tudo isto e ainda assim continuo a deixar que existas dentro de mim, continuo a deixar que a memória se alongue em buscas irreais da felicidade que partilhámos e que o coração esprema todo o sangue que ainda lhe resta para me manter vivo. Podia dizer-te que não sou capaz ainda de dizer o que sinto por ti, que ainda tinha demasiadas cicatrizes quando me encontraste e que nunca esperei que fosses mais uma, que mesmo longe me estás a destruir e a fragmentar o que resta da alma, que não consigo nem quero voltar depois da ilusão de uma vida que tive ao teu lado, que não posso esperar mais pelo tempo que teima em não passar.
Abro uma porta no espaço e digo-te que me fazes falta, que tenho saudades tuas, no infinitivo.
Responde-me o silêncio…

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