Sonhar (Parte III)

Desligo o carro e deixo-me ficar mais um pouco a escutar as palavras do Nick Cavernoso e As Sementes Más “…I knew you’d find me cause I longed you here, in my destiny this is how you’ll appear, wrapped in a coat with tears in your eyes…”. Ela, destino, lágrimas, chega! A porta fechada com estrondo por trás de mim é resultado do turbilhão de chamas que arrasto comigo e que queima os olhos que se viram para mim. Camada de fracos inúteis. Não me tentem ainda mais os insanos instintos, desviem-se, afastem-se, porque é que as traças são atraídas para as chamas?
Boa noite. Olá. Tiras-me o costume? Veneno? Aceno com a cabeça, sim é veneno, um dos poucos aos quais ainda não me tornei imune. O aroma a tabaco, a musica alta, o leve sussurrar de segredos pelos cantos, as obscuras palavras trovadas tão compatíveis com o código de vestuário. O Vermelho e o Negro. Não, não é Stendhal e eu devo ser o único que não segue a malhada. Ah! Até ela. Doc Martens, a saia negra, o corpete de laços vermelhos, as raízes negras do cabelo agora tornado ruivo. A minha cordeira tornada Deusa da Morte. As asas negras recentemente tatuadas nas costas eram disso reflexo, reflexo das noites passadas em claro a transformar a sua alma numa extensão da minha. Agarro no copo e dirijo-me para a única mesa vaga. Ainda não me acomodei e já a vejo a furar através do ar direita a mim. Os instintos de caça.
Sem uma palavra…

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